Quando eu era Criança

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QUANDO EU ERA CRIANÇA

“Quando eu era criança,
Não tínhamos a vida infernizada pelos preços do petróleo, o buraco do ozono, o terrorismo urbano, a escassez dos recursos naturais, o politicamente correto, a poluição global, os bancos falidos… enfim vivíamos no paraíso, mas queríamos crescer rápido, e ambicionávamos calçar um número acima.

Quando eu era criança,
O céu azul era mesmo azul. À noite, era negro, povoado de estrelas, nitidamente mais estrelas do que agora, e com um brilho mais intenso. Quando a disponibilidade permitia, os que já sabiam contar, entretinham-se a contá-las, a ver quem descobria primeiro a quantia exata. Tanto quanto me lembre, nunca se chegou a um consenso.
No nosso mundo, tudo era em grande, tudo era gigante, fossem as coisas ou animais. Até os bancos e cadeiras eram tão altos que dava para balouçar as pernas.

Quando eu era criança,
A dor doía mais forte e as dores de barriga eram dores de burro.
As injeções e as vacinas provocavam gritos e choro nos mais “medricas” e eram torturas horrendas, a não ser daquelas vacinas que se deitavam uns pingos na boca e dava direito a saborear uma bolacha para contrariar o sabor amargo.

Quando eu era criança,
Confundia os sonhos com a realidade. O tempo era mais longo, os relâmpagos e os trovões mais arrepiantes, os ruídos noturnos muito suspeitos, as noites mais escuras, tenebrosas e povoadas de sinistras feiticeiras que encantavam os mais incautos e nos faziam arrepiar de medo, no tempo em que os medos eram profundos, recheados de monstros e diabos temíveis bem piores e mais “feios” que os de uma pintura de Jerónimo Bosch.

Quando eu era criança,
Nem todas as casas tinham luz eléctrica e a iluminação noturna era feita com velas ou candeeiros a petróleo.
À falta de frigorífico, alguns alimentos eram conservados com sal em ânforas de barro vermelho, mais conhecidas por salgadeiras ou púcaras.

Quando eu era criança,
Os sabores, as cores e os aromas eram mais intensos. As vozes das mulheres mais doces, as dos homens mais ásperas e secas.
Também a fruta era mais adoçada e tinha estação própria. Não era importada do Chile, África do Sul, Nova Zelândia, Brasil e todas essas paragens que fazem do mundo de hoje um “pomar global”.

Para comer fruta, por vezes bastava subir diretamente nas árvores. E era só apanhar as ameixas, os figos melosos, as bebras vermelhas, os araçás, os peros, as ginjas, as nêsperas, as anonas…

As castanhas eram apanhadas à vara. Primeiro caía o ouriço, pequeno invólucro castanho cheio de espinhos, que imponha algum respeito aos mais pequenos, e só depois, prendendo-o na ponta da bota, se esventrava com a foice ou outro objecto cortante.
Para o final do Verão, era a apanha das uvas. Não havia ainda a “festa das vindimas”, mas as crianças faziam a festa, pisando e atrapalhando no lagar, de pés descalços e tingidos de vermelho, na espectativa de provar o mosto. Sem grandes exageros claro, pois, caso contrário, eram problemas intestinais pela certa.

Quando eu era criança,
Não conhecia fábricas. Mas havia o ferreiro que malhava o ferro em brasa e soprava na forja incandescente com um fole gigante. O carpinteiro construía sobretudo bancos e mesas, por vezes uns caixões de pinho e, ocasionalmente, recuperava sem grande ciência um móvel mais antigo, uma cómoda de castanho ou uma arca de vinhático escurecido, herdada dos bisavôs.
O padeiro, depois de uma noite atarefada, distribuía pela manhã, bem cedo, em grandes cestos de vime que carregava às costas, o pão ainda quente pelas mercearias ou particulares que tinham encomendas certas.
O mesmo fazia o leiteiro com uma vara e as vasilhas do leite sobre os ombros, ou o vendedor de peixe, com uma selha na cabeça, ia gritando é Gaiaaado. Ou, peixe-espada.

Quando eu era criança
Não havia hamburgers ou “fast food”. Para uma comida rápida e especial, bastava um ovo escaldado nas brasas, uma maçaroca cozida no braseiro, um sorvete com gelo de sumo de maracujá num palito ou uma simples fatia de pão-de-ló.

Quando eu era criança,
Os poios, encavalitados pelas encostas e escarpas em socalcos ajardinados, mais pareciam pinceladas de uma qualquer paleta desgovernada de um pintor impressionista.
Os trigais verdes da Primavera tornavam-se amarelos e maduros no Verão e eram então apanhados por bandos de homens e mulheres numa azáfama digna de uma pintura de Jean-François Millet. Duas grandes máquinas acionadas à manivela e colocadas sobre uma extensa lona verde debulhavam o trigo. Primeiro, uma das máquinas fragmentava a espiga separando-a da palha. A segunda máquina apurava melhor a limpeza dos grãos que saiam limpinhos e prontos a ensacar. Toda esta trabalheira juntava amigos, vizinhos, trabalhadores contratados, outros familiares e muita, muita miudagem que saltava e fazia túneis no amontoado gigante de palha que, mais tarde, serviria para os animais ou para coberturas, sobretudo dos palheiros que ainda resistiam ao pragmatismo dos telhados de chapa zincada.
A ceifa em conjunto com a debulha do trigo era uma tarefa dura, mas festiva, nas rotinas do cultivo e da colheita agrícola. O mesmo se passava com a apanha da cana sacarina. À hora do almoço, interrompia-se o trabalho, estendiam-se toalhas sobre a erva e as mulheres dispunham grandes pratos com muita variedade de comida e bebida. Carnes, peixe, pão caseiro e toda uma infinidade de produtos da terra. “Semilhas”, batata-doce, maçarocas, feijão com vagem e tantas outras coisas que já se me esfumaram da memória. Tudo regado com vinho, sobretudo o vinho da última estação feito no lagar de casa. O bom vinho engarrafado era coisa das cidades e dos burgueses.

Quando eu era criança,
Os moinhos de vento e azenhas em laboração já eram escassos. Imperavam os moinhos eléctricos. Ainda recordo o moleiro a moer o trigo que as pessoas levavam para esse fim. Dava uma farinha quase branca, hoje seria biológica, e também um subproduto, o farelo ou rolão. O rolão era essencialmente a casca do trigo. Servia para os animais, mas, misturado com um pouco de farinha e amassado com batata-doce, dava um delicioso pão. O “bolo de rolão”.
Com a farinha branca, fazia-se o pão de casa. Este era amassado em gigantescos alguidares de madeira talhada e a massa era cozida em fornos de cantaria vermelha. Normalmente, essa tarefa era incumbência das mulheres da família. Para grandes amassaduras, juntavam-se mães, filhas, cunhadas, tias, sogras e a criançada para atrapalhar e alvo constante da repreensão das mais rabugentas.

Quando eu era criança,
As festas de casamento não eram feitas nos restaurantes. Normalmente, era nas casas novas dos recém-casados ou na casa de algum familiar. Montavam-se toldos, mesas e cadeiras. Havia churrasqueira acesa, carne e paus de louro. Galinhas desnucadas e depenadas em grandes panelas de água fervente, muita algazarra, com as crianças a correr e a brincar, jogos de cartas ou dominó e vinho sobre as mesas numa azáfama de tal ordem e num cenário por vezes tão surrealista que mais parecia um filme de Emir Kusturica. Havia arroz doce, arroz branco, arroz de miudezas, caldo de galinha e, sei lá, muitas outras iguarias entre as quais ainda recordo os bolos de noiva. Uma espécie de pequenos pães doces, apimentados e com intenso sabor a canela e erva-doce. Estes bolos eram distribuídos pelos convidados ou enviados para amigos mais distantes ou outras pessoas que não tinham estado presentes na boda.

Quando eu era criança,
O Natal era o ponto alto do ano. Parece que nunca mais chegava e a ansiedade aumentava ainda mais a partir dos finais de Novembro. Por essa altura, as mercearias e lojas expunham, provocatoriamente nas montras, brinquedos de perder a respiração.
Era ver os autocarros, as motos de corda, os camiões, os carros da bomba, tudo feito de lata, pintada de cores vibrantes e num ambiente envolvente com balões coloridos, confettis e gambiarras a iluminar noite dentro, para completar a sedução noturna. Até os apitos, gaitas e cornetas de plástico eram fluorescentes. Mais próximo ainda do Natal, começavam as missas do parto pela manhã cedo e, pelo dia, confeccionavam-se os bolos e broas de mel e matavam-se os porcos que, em si mesmo, já dava uma festa dentro das festas do Natal. Na noite de 24 para 25, era a missa do galo. Nalgumas igrejas, havia cânticos, oferendas com animais e charolas arrumadinhas com toda a colheita de frutos e legumes que a terra dava.

Quando eu era criança,
Os presentes no sapatinho eram oferecidos pelo Menino Jesus. Hoje, parece-me que delegou essa tarefa no Pai Natal. Montava-se um presépio em escadinha e os degraus eram enfeitados com searas, cabrinhas, alguns pequenos brinquedos, pastores e outras figurinhas de barro. Por vezes, as crianças disponibilizavam os seus brindeiros* para a escadinha, como oferenda ao Menino Jesus, e também se colocavam outros produtos comestíveis que, entretanto, iam desaparecendo com o avançar das festas, lá próximo do fim do ano, surripiados pelos mais novos e os mais gulosos. Castanhas, tangerinas, laranjas, doces etc. No topo da escada, ficava o menino de pé, com um vestido de seda branca, um esplendor de prata na cabeça e, na mão esquerda, segurava um pequeno ramo de flores artificiais feito de cera branca, também usado nos casamentos. A mão direita apontava com o indicador ao alto.
A um canto da sala, era montado um pinheiro de elegantes e verdes agulhas, cujo cheiro a resina fresca se juntava ao aroma das flores e frutos do presépio, dando a todo o ambiente um perfume delicioso, inigualável, tão característico e exclusivo desta época Natalícia.

Quando eu era criança,
Não havia playstation. Construíam-se “carros de verga”, com os quais se faziam corridas nas ruas secundárias, desertas de tráfego e de qualquer perigo eminente ou grande poluição atmosférica. Aliás, à falta de recintos, montava-se na própria estrada quatro latas vazias para duas balizas e tínhamos uma partida de futebol entre a passagem de dois carros, jogada com uma bola de plástico azul.
Por vezes, para brincar, tínhamos legos ou então pequenos pedaços de madeira com os quais se construíam casas, torres, ou imaginávamos sofisticadas esquadras marítimas, repletas de barcos de guerra, aviões e mesmo submarinos que navegavam em mares imaginários e combatiam em extensas e incontáveis batalhas navais.

Quando eu era criança,
As meninas eram deusas. Belas e bonitas. Algumas mais altivas e distantes, outras mais “terra a terra”. Quando não brincavam com bonecas e enxovais, alinhavam nas brincadeiras com os meninos. Havia louras e morenas, com sardas, de belíssimos olhos azuis ou castanhos, todas com pequenos brincos de ouro e vestidinhos que mais se pareciam com os das bonecas. Tinham os cabelos em trancinhas, rabos de cavalo ou simplesmente soltos a esvoaçarem ao vento.
Também elas, esvoaçavam nos nossos sonhos infantis. Leves, caprichosas, tal qual, dançarinas de uma pintura de Degas.

Quando eu era criança,
Brincávamos aos polícias e ladrões. Havia tiros com pistolas de plástico, cavalos fantasiados sobre os ramos das árvores e perseguições que, por vezes, acabavam em “pancadaria”.
Em casos mais extremos, acabava tudo à pedrada, com lágrimas, sangue e ranho à mistura e, por vezes, havia ameaças de recurso ao irmão mais velho. Mas não havia heróis, nem ódios, nem inimigos de estimação. Só zangas momentâneas com adversários de circunstância. Normalmente, as tristezas eram passageiras e no dia seguinte recomeçava tudo em paz.

Quando eu era criança,
No vaticínio e comentário dos mais velhos, éramos os “homens do amanhã”.
Agora, chegou a minha vez de olhar as crianças e refletir que tudo isto é um círculo que se renova e que são elas, as crianças de hoje, os homens e as mulheres de amanhã.”

* – brindeiro.   [Portugal: Madeira]  Pão pequenino, feito tradicionalmente para ser oferecido aos afilhados no Natal ou na Páscoa. Qualquer pão pequeno.

Texto original de José Manuel Gomes


1 Comment

  • eugenmanole Posted Janeiro 17, 2018 5:07 pm

    Que lindo texto. Muito grata José Manuel, para o partilhares connosco. É sempre tão bem lembrar-nos da nossa infância e manter viva a nossa criança interior

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