O que se ganha com o silêncio – mental e fisicamente

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O QUE SE GANHA COM O SILÊNCIO – MENTAL E FISICAMENTE 

Texto original de Clara Soares (jornalista) in Revista Visão n.º 1364, 24/04 a 01/05/2019

Passar voluntariamente alguns dias sem dizer palavra nem ter conversas mediadas pela tecnologia, a sós ou em grupo, é uma tendência que conquista cada vez mais adeptos e uma prática secular com ganhos mentais comprovados pela Ciência.

Quando és confrontado com o silêncio da Natureza, até consegues ouvir-te a pensar”, observou o tigre de peluche Hobbes. “Isto está a pôr-me muito nervoso”, replicou Calvin. O cartoonista Bill Watterson ilustra assim o efeito perturbador da ausência súbita das “companhias” habituais de uma sociedade ruidosa e hiperconectada no registo 24 sobre 24 horas. Aparelhos de som ligados em casa, desde o acordar ao adormecer, música nos ouvidos para todo o lado onde se vai, deitar mão ao telemóvel no elevador e falar por falar num evento social – tudo menos suportar silêncios ou vazios de fundo.

Contudo, o conceito vende, e bem. Há cinco anos, “Silêncio, por favor” foi a imagem de marca da Finlândia para atrair turistas: ali não há poluição sonora, a qual, estimou a Organização Mundial da Saúde em 2011, retira anos de vida a mais de 330 milhões de europeus, além de contribuir para milhares de mortes por doenças cardíacas associadas ao excesso de ruído.

Um mistério que a neurociência investiga há anos e cujos resultados começam a ser levados a sério, como atesta o artigo This Is Your Brain on Silence, no jornal online Nautilus, ao citar o estudo do médico Luciano Bernardi – o mais descarregado na revista Heart em 2006 – sobre o efeito das pausas silenciosas de dois minutos entre músicas, mais relaxante do que uma composição com esse fim: as ausências sonoras eram um evento autónomo que fazia disparar neurónios distintos no córtex auditivo. Anos depois, a equipa do neurocientista canadiano Joseph Moran descobriu que o cérebro em repouso continua ativo no modo de rede padrão (default network), onde se geram estímulos mentais nas áreas associadas à função de autorreflexão. Será esse o motivo que leva cada vez mais pessoas a retirarem-se de circulação em doses q.b. para não sucumbirem ao desgaste sensorial e às chamadas doenças da civilização (ou da pressa)?

O isolamento voluntário, outrora apanágio de viajantes solitários e peregrinos, está a converter-se num imperativo pessoal à escala planetária, em boa parte catalisado por celebridades e influenciadores nas redes sociais. Veja-se a partilha de Jack Dorsey, CEO do Twitter e da plataforma Square, há dois anos: “Estive dez dias em meditação silenciosa. Uau, que recomeço! Afortunado e grato por me ter dado tempo para isso!”, tweetou, após um retiro de Vipassana, que acumula fãs em Silicon Valley. Oprah Winfrey e Emma Watson renunciaram ao uso das competências discursivas por alguns dias e, no dia seguinte ao da entrega de prémios em Hollywood, a oscarizada Lupita Nyong’o anunciou que também o fez. Mas como aferir se funciona?

A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE ESTIMA QUE A POLUIÇÃO SONORA RETIRA ANOS DE VIDA A MAIS DE 330 MILHÕES DE EUROPEUS

VOU ALI DESLIGAR E JÁ VOLTO
Enquanto se multiplicam crónicas em sites de jornais de referência com tutoriais para sobreviver ao primeiro retiro de silêncio, surgem ofertas para todos os gostos e bolsas, também em Portugal, país procurado pelo clima, pela hospitalidade e pelos prémios de destino turístico de qualidade a bom preço. “Fez-me muito bem parar e olhar para dentro, sem o telefone, a interferência da família e a tensão do mundo exterior”, afirma Suzana Oliveira, 45 anos, que se entregou a um fim de semana sem falar num espaço de turismo rural, com pinheiros, árvores de fruto e piscina, junto à serra da Arrábida. O resultado surpreendeu-a pela positiva: “Entrei em contacto comigo mesma, soltei mágoas antigas, enfrentei medos e senti-me capaz de superar limitações.”

Estamos a falar do espaço Azeitão Zen, gerido há seis anos por Sandra Rodrigues, formada em gestão hoteleira e ex-proprietária de um restaurante. Os eventos organizados com este fim atraem quem sofre de “stresse profissional ou quer repensar situações pessoais e familiares”. À chegada, os participantes (dez a 12) entregam os telefones e espera-os um jantar vegetariano, onde se conhecem e se preparam para a experiência, com início no sábado de manhã. Não se ouvem vozes nem se escreve para interagir, “a não ser consigo mesmo”. Caminhar, ler e fazer ioga ou Pilates fazem parte do menu. “No fim do retiro, até se esquecem de levar o telefone!”, brinca Sandra Rodrigues. A mais-valia é clara: “Quando partem, aplicam as ferramentas que descobriram aqui às suas rotinas, enquanto o filho está no futebol, por exemplo.”

“A CORAGEM PASSA HOJE EM DIA POR SERMOS CAPAZES DE ESTAR SOZINHOS”

Com três livros publicados em Portugal, o autor best-seller californiano David Kundtz, psicoterapeuta e palestrante de 82 anos, explica porque importa retirar-se e parar, antes de voltar a seguir em frente.

PORQUE TEMEMOS TANTO FICAR SOZINHOS E PREFERIMOS ESTAR SEMPRE LIGADOS?
O silêncio e a contemplação são territórios estrangeiros na cultura atual. Tal como era para os nossos antecessores um ato de coragem atravessar rios ou montanhas, essa coragem passa hoje em dia por sermos capazes de estar sozinhos numa sala sem fazer nada.

É PARADOXAL QUE SE PARE OU SE ABRANDE QUANDO SE TEM PRESSA. QUER COMENTAR?
Temos uma cultura que nos mantém ocupados e nos desvia de nós. Para não nos perdermos na dispersão e no ruído, precisamos de parar durante tempo necessário, a fim de aceder à sabedoria que temos escondida dentro de nós e orienta as nossas vidas.

COMO FOI CONSIGO E EM QUE MEDIDA VALEU A PENA?
Tive uma séria crise de meia-idade e, após 20 anos de sacerdócio, isolei-me no Norte da Califórnia.
Não fazia nada, apenas aguarelas.
No final de um mês de silêncio, escuta serena e sem distrações, fiquei seguro acerca de como queria continuar a viver.

 

DUAS HORAS POR DIA, O BEM QUE LHE FAZIA
A procura de ambientes não saturados de estímulos sensoriais não impede que a mente permaneça ativa, mas catalisa processos neuroquímicos importantes. Uma pesquisa coordenada pela investigadora alemã Imke Kirste e publicada na revista Brain Structure & Function mostrou que ratos sujeitos a vários estímulos auditivos e privados de som durante duas horas desenvolveram novas células no hipocampo (estrutura cerebral do sistema límbico responsável pela consolidação de memória e respostas emocionais). O nível de atenção extra era a resposta adaptativa que estaria na base da neurogénese.

Será assim nos humanos, mais complexos do que as cobaias? “A criação de neurónios novos na idade adulta não está completamente resolvida”, comenta João Peça, investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, que considera que “ainda é cedo para falar do efeito do silêncio na neurogénese a partir de modelos laboratoriais”. Uma coisa é certa: fisiologicamente, entramos num estado de alerta perante uma situação desconhecida e desaceleramos num cenário familiar. A súbita ausência de som (ou do “banho sonoro” que conhecemos) é suficiente para pôr a nu a orquestra mental – porventura ensurdecedora – de cada um, como terá acontecido aos espectadores do evento 4’33”, do compositor e maestro John Cage, no século passado: quatro minutos e 33 segundos sem uma única nota.

Os benefícios da quietude no cérebro e no sistema cardiovascular são confirmados pelo neuropsicólogo e investigador André M. Carvalho nos pacientes que acompanha no Hospital dos Lusíadas, em Lisboa. “O silêncio pode estar associado a um estado de alerta reduzido ativado pela amígdala, que resulta em menores níveis de ansiedade”, assegura. “Em contrapartida, em casos graves de depressão com stresse crónico, há uma redução do volume do hipocampo, que pertence ao sistema límbico (instintos).” É aqui que as práticas meditativas tendem a entrar em cena.

No Center for Healthy Minds da universidade americana Wisconsin-Madison, liderado por Richard Davidson, os cérebros de praticantes regulares de meditação submetidos a ressonâncias magnéticas revelaram-se imunes ao chamado “apego afetivo”, ou seja, não interpretavam as situações de teste com uma carga emocional intensa nem se identificavam excessivamente com elas. “A contemplação está para o cérebro como os exercícios aeróbicos para o coração”, concluiu Davidson, na medida em que previne a libertação excessiva de dopamina e de cortisol, que estariam na base de respostas emocionais extremas, positivas e negativas.

A CAPACIDADE DE ESTAR SÓ

“Os retiros de silêncio com atenção plena permitem desenvolver distanciamento e clareza num contexto de humanidade partilhada”, nota Vítor Bertocchini, da Sociedade Portuguesa de Meditação e Bem-Estar, no Porto. “Para algumas pessoas pode ser confuso e desconfortável no início”, adianta, “mas tomar consciência da riqueza do silêncio grupal em fruição contemplativa pode ser mais gratificante do que estar envolvido numa conversa”.

Na Herdade do Barrocal de Baixo, em Montemor-o-Novo, faz-se uma pausa do mundo exterior e meditação guiada. João Palma, diretor do BudaDharma, destaca a “oportunidade de treinar a presença e a escuta ativa”, desde a forma de respirar e de caminhar ao estar consciente de como se ingere um alimento e do manuseamento dos talheres. “Depois de experimentar, sente-se a falta”, assegura o gestor hospitalar João Pedro Correia, 42 anos, também adepto dos retiros de silêncio jesuítas [exercícios espirituais], “mais ativos e centrados em questões específicas”.

Viajar ao fundo de si pode trazer estados de angústia, perda e vazio. Não é o caso do empresário-editor norueguês Erling Kagge, o primeiro homem a chegar ao Polo Norte e a conquistar o Polo Sul a pé. O seu livro Silêncio na Era do Ruído é um hino à capacidade de estar só, luxo a que poucos acedem.

O psicoterapeuta e best-seller norte-americano David Kundtz isolou-se durante um ano. A seguir, mudou de vida, pondo fim a duas décadas de sacerdócio (ver entrevista). Em Parar, defende o poder das pausas, dos intervalos e dos períodos mais longos. Uns podem ser mais espartanos do que outros, se tivermos em conta detalhes de retiros cujas atividades começam de madrugada e são pautados pela frugalidade alimentar, por exemplo.

“Quem está deprimido ou esgotado não beneficia destes retiros, dada a sua natureza intensiva que exclui a partilha de processos mentais”, assinala Carla Martins, neuropsicóloga responsável do Ser Integral, no Porto, por onde passaram, em cinco anos, cerca de 500 pessoas, com idades entre os 20 e os 70 anos. “Vêm e repetem.” Desligam-se do mundano para “reconhecer e mudar padrões antigos e reencontrar a paz”. Orientados por professores certificados dos EUA e do Reino Unido, os encontros chegam a reunir uma centena de pessoas, portuguesas e estrangeiras, na Casa da Torre, em Vila Verde: trata-se de um mosteiro jesuíta com vários quartos, inserido numa área natural e “sem ligação com a linhagem religiosa”.

Na serra de Monchique, no Algarve, Bal Krishna é o responsável do Centro de Retiros Karuna (compaixão), reconstruído após o incêndio do passado verão. Há décadas em Portugal, ele explica que “o melhor indicador para decidir frequentar um retiro de silêncio é o cansaço do não silêncio”. É um desafio grande, que vale a pena: “Primeiro, reconhece-se a dispersão, a agitação e a confusão mental; depois, vê-se a vida como é, impermanente, sem atribuir a responsabilidade dos nossos problemas a outros.”

UMA INVESTIGAÇÃO MOSTROU QUE RATOS PRIVADOS DE SOM DURANTE DUAS HORAS DESENVOLVERAM NOVAS CÉLULAS NO HIPOCAMPO

POUCO BARULHO!
Longe de ser “um fragmento ou despojo do mundo” ou “o lugar onde o ruído ainda não conseguiu penetrar”, como lamentava, em 1948, o filósofo suíço Max Picard, citado num recente artigo da New Yorker, o silêncio, recurso “de ouro” em relação à palavra, começa a ganhar espaço na sociedade atual. Um exemplo disso aconteceu há dois anos, no Encontro Correntes d’Escritas, com o arcebispo e poeta Tolentino Mendonça a expressar o desejo de ver o silêncio reconhecido como Património Imaterial da Humanidade.

Entretanto, há quem veja na mistura criativa de polaridades o segredo da harmonia e da paz de espírito. É o caso de Miguel Lourenço, ex-informático e atual formador em taças tibetanas. Há seis anos, integrou-as no primeiro retiro de silêncio que organizou e continua a fazê-lo até hoje. Na Quinta da Costa, em Famalicão, os interessados são convidados a parar para se ouvirem, já que “uma boca silenciosa é uma mente ruidosa”. Os receios iniciais dão lugar à quebra de rotinas, sem noção das horas e sem interdições de maior, como fumar (lá fora). As refeições não são de prato e cada um traz o que quiser. “Há pessoas que se vingam na comida para saciar a ansiedade nas primeiras horas e depois acalmam”, esclarece Miguel, “outras pintam ou dormem o dia inteiro e outras descobrem talentos que não tinham”. Aqui, em Aveiro ou em Lisboa, “quem vem toma decisões que andava para tomar há anos, e nunca houve uma desistência”.

Voltando às vicissitudes e alegrias do silêncio, a razão está do lado dos nórdicos: uma paisagem propícia convida o barulho da mente a dissolver-se num espelho de água, basta deixá-la estar, simplesmente. Para alívio de Calvin & Hobbes. E de muitos de nós.

CHIIIIU! A FORÇA DA QUIETUDE
Colocar uma criança agitada “na cadeira do pensamento”, andar a pé após uma situação perturbadora e dedicar minutos do dia a estar sozinho são antídotos para o stresse, mas não só.

Conheça cinco ganhos fisiológicos do silêncio:

Reduz os níveis das hormonas de stresse (cortisol, adrenalina e afins)

Reforça o sistema imunitário pela não-ativação contínua do modo de alerta

Previne a aterosclerose e a pressão arterial elevada

Contribui para novas células no hipocampo (crucial na aprendizagem e na memória)

Promove a regulação hormonal, com impacto nos outros sistemas do corpo.


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