O conceito de felicidade na Bhagavad-Gita: similaridades e contrastes com o paradigma hegemónico no ocidente

162 0 1

O conceito de felicidade na Bhagavad-Gita: similaridades e contrastes com o paradigma hegemónico no ocidente

Dr. Thiago Pelúcio Moreira
Universidade Federal da Paraíba

Resumo: A Bhagavad-Gita é um clássico épico da literatura, filosofia e religiosidade da Índia que aglutina a licença poética de uma escritura milenar com a clareza e aplicabilidade exigidas a um tratado filosófico-religioso universalista. Por ter um enredo histórico que remete a situações de conflitos existenciais da contemporaneidade, seus ensinamentos e valores são um vasto manancial para o questionamento da razão de se estar e viver no mundo. O objetivo do presente trabalho é discutir o conceito de felicidade que permeia a Bhagavad-gita comparando-o com o referencial de felicidade hegemônico na sociedade atual. A noção mais próxima do que se convenciona chamar de felicidade está presente na Gita principalmente na terminologia sânscrita sukha. A experiência da felicidade, de acordo com a Bhagavad-Gita, pode se expressar em diferentes níveis, podendo variar em intensidade e constância de acordo com o envolvimento do sujeito com os gunas, ou arquétipos de pensamento/comportamento que predominam. Espera-se com este trabalho contribuir para a melhor compreensão do conceito de felicidade na Bhagavad-Gita e sua aplicabilidade na atualidade.

Palavras-chave: Felicidade, Hinduísmo, Bhagavad-Gita

Abstract: The Bhagavad-gita is a classical epic of indian literature, philosophy and religiosity which combines the poetic license of a ancient scripture with the clarity and applicability required by an universalist philosophical-religious treatise. Due to the historical context associated with it, which involves existential conflicts much alike the ones we face nowadays, its teachings and values are a rich source for such questions like “Why are we alive in this world?”. The purpose of this work is to discuss the concept of happiness behind the Bhagavad-gita, and compare it with the notion of happiness dominant in our society nowadays. The closest notion in the Bhagavad-gita to what we call happiness the one expressed by the Sanscrit word sukha. According to the Gita, the experience of happiness takes place in different degrees; and these degrees are strongly related to the involvement of the individual with the gunas, or the archetypal of thought and behavior which predominates in him or her. We hope with this work to contribute to a better understanding of the concept of happiness in the Bhagavad-gita and how it might be applied in our modern society.

Key-Words: Happiness, Hinduism, Bhagavad-Gita

INTRODUÇÃO
A idéia de felicidade pode ser associada a muitos conceitos, tornando o objetivo de especificá-la uma tarefa muito trabalhosa de ser levada a cabo (Corbi e Menezes-Filho, 2006). A felicidade é naturalmente uma percepção predominantemente subjetiva, estando subordinada mais a traços de temperamento e postura perante a vida do que a fatores externamente determinados (Ferraz, Tavares e Zilberman, 2007).
Atualmente, a felicidade está elevada ao grau constitucional em diversos ordenamentos jurídicos. Nesse contexto é importante citar o Reino do Butão, pequeno país na região dos Himalaias, que estabelece como indicador social um Índice Nacional de Felicidade Bruta (INFB), mensurado de acordo com indicadores que envolvem bem-estar,cultura, educação, ecologia, padrão de vida e qualidade de governo. (Rubin, 2010).
A Felicidade Interna Bruta (FIB) é um conceito que nasceu em 1972, elaborado pelo rei butanês Jigme Singya Wangchuck. Desde então, o reino de Butão, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), começou a colocar esse conceito em prática, e atraiu a atenção do resto do mundo com sua nova fórmula para medir o progresso de uma comunidade ou nação. Assim, o cálculo da “riqueza” deve considerar outros aspectos além do desenvolvimento econômico, como a conservação do meio ambiente e a qualidade de vida das pessoas. (Lustosa e Melo, 2012). Como exemplo da relevância da felicidade na contemporaneidade pode- se observar a pesquisa Gallup realizada pela revista Forbes em 155 países, feito a partir de entrevistas realizadas entre 2005 e 2009, na qual o Brasil figura como o 12o país mais feliz do mundo (Rubin, 2010).
Como ficará claro mais adiante na elaboração do referencial teórico, a civilização ocidental atual está imersa em uma busca pela felicidade de modo efêmero e superficial, o que tende a levar a grande maioria de pessoas ambicionadas por esta proposta a mergulharem em constantes oscilações de frustração e depressão. Daí a importância de buscarmos outros referenciais, a exemplo de variadas formas de espiritualidade, como um recurso mais harmônico para conduzir a uma busca pelo prazer muito além da percepção externa.
Um outro fator que está associado a maiores índices de felicidade é o comprometimento com a fé, seja por meio da religiosidade, seja por meio da espiritualidade (Ferraz, Tavares e Zilberman, 2007). Enquanto a religiosidade pressupõe um sistema organizado de crenças e de práticas ritualísticas, a espiritualidade consiste numa busca pelo significado da vida e pelo estabelecimento de uma relação com o sagrado e o transcendental, sem necessariamente passar pelo desenvolvimento de práticas religiosas ou participação numa comunidade. Pessoas que se descrevem como religiosas ou espiritualistas tendem a reportar maiores índices de felicidade e satisfação com a vida. Além disso, tais indivíduos parecem lidar melhor com eventos adversos que ocorram no curso de suas vidas, como desemprego, doenças ou luto. Acredita-se que existam pelo menos dois motivos que explicariam essa associação. Primeiro: a espiritualidade provê um sentido e um propósito para as vidas das pessoas, respondendo a uma série de questionamentos existenciais que comumente levam à angústia e à infelicidade. O segundo motivo é que, ao participarem de ritos em que há uma congregação de fiéis, os religiosos tendem a sentir-se menos solitários, e talvez por isso mais felizes.
A sabedoria e a espiritualidade que vêm do Oriente podem ser um importante referencial para auxiliar uma revisão no conceito de felicidade hegemônico no Ocidente. Destaca-se desta área todo o manancial que pode ser explorado nas diversas tradições e escrituras da Índia, em especial a Bhagavad-Gita (BG).
A BG é um tratado sobre yoga, apresentando-a em todas as suas potencialidades para conexão sagrada do humano com o divino. Ela deriva da tradição Vaishnava. Ficou famoso fora da Índia especialmente depois da segunda metade do século XX, depois da ampla divulgação realizada pelo preceptor Bhaktivedanta Swami Prabhupada (Schweig, 2007).
O objetivo do presente estudo é discutir o conceito de felicidade que permeia a Bhagavad-Gita comparando-o com o referencial de felicidade hegemônico na sociedade atual. Tendo como pano de fundo a relevância e referenciais teóricos acima expostos, o presente artigo tem como estrutura os tópicos que seguem: o paradigma de felicidade no Ocidente; Felicidade na Bhagavad-Gita (questionamentos de Arjuna; felicidade exterior; felicidade interior; relação entre felicidade e gunas); Discussão e; Conclusão.

O PARADIGMA DE FELICIDADE NO OCIDENTE

O bem-estar humano é composto por duas dimensões básicas: a dimensão objetiva e a subjetiva. A dimensão objetiva é aquela passível de ser publicamente apurada, observada e mensurada externamente, que se reflete nas condições de vida registradas por indicadores de nutrição, saúde, moradia, criminalidade etc. A dimensão subjetiva consiste na experiência interna de cada indivíduo, isto é, tudo aquilo que passa em sua mente de forma espontânea a partir da percepção da realidade ao seu entorno. Notamos ainda uma dependência recíproca entre ambas a partir da observação de situações extremas: se o lado objetivo do bem-estar não preencher requisitos mínimos (alimentação, moradia, saúde), o bem-estar é muito difícil de ser alcançado. Por outro lado, o inverso também é verdadeiro. Para alguém terrivelmente deprimido, mesmo cercado de luxo e conforto, o viver torna- se um grande desgosto. A felicidade é algo que está num campo de intersecção entre estas duas dimensões do bem-estar.
Outros pesquisadores já creditam à felicidade uma dimensão totalmente interna, ainda que influenciada por fatores externos. Daí ser comum utilizar-se hoje a denominação de bem-estar subjetivo, que seria o que os leigos chamam de felicidade, prazer ou satisfação com a vida. (Costa e Pereira, 2007).
A felicidade na contemporaneidade, nesta era do hiperconsumo, presta culto às sensações imediatas, aos prazeres do corpo e dos sentidos, às volúpias do presente. Isto se traduz em um aprofundamento da tentativa de ser feliz explorando a realidade egoisticamente (Scorsolini- Comin, 2009).
Indubitavelmente, vivemos em uma época na qual a promessa de felicidade, agora separada de suas conotações com o sagrado, estaria no final da trilha de um comportamento que chamaríamos de hedonista. O hedonismo não é invenção moderna. E pode ter tido várias versões ao longo da história.
Em termos genéricos, pode-se dizer que o hedonismo perceptível atualmente propõe extrair da liberdade individual o máximo de prazer disponível, o que seria o equivalente a ser feliz. O termo disponível sinaliza a possibilidade de consumo de todas as ofertas que o progresso tecnológico põe à disposição. Quanto mais pudermos consumir, mais seremos felizes. Essa é a promessa embutida na crença propagada pelos meios de produção. (Franco-Filho, 2009). Esse pensamento tem algumas premissas.
A primeira delas aponta não apenas que se pode ser feliz, mas que se deve ser feliz. Essa postura implica uma mudança radical nas estruturas psíquicas, uma condenação à culpa de não ser feliz. Em consequência, vive-se o fardo da infelicidade de não ser feliz. E paga-se o preço de tal pensamento com sofrimento (Franco-Filho, 2009). A felicidade tornou- se um imperativo, uma mistura entre dever e direito que massacra as pessoas (Cazeloto, 2011).
A segunda evidencia as trilhas e as atitudes que todas as pessoas devem adotar para alcançarem a felicidade. O que fica implícito (ou oculto) na proposta é a contradição nela embutida: que a liberdade individual na escolha dos prazeres fica tolhida, quando não negada, pelo fato de se imporem às pessoas padrões de consecução de prazer. (Franco-Filho, 2009).
A terceira premissa diz respeito à noção de prazer à qual ela se direciona. Esse prazer não decorre do exercício das virtudes, mas da capacidade de ter sensações prazerosas. Isso implica a primazia do prazer sensorial, aquele proporcionado pelos sentidos que o corpo abriga (Franco-Filho, 2009).

Ao longo da história, a noção que se tinha sobre felicidade diferia muito da atual. Para os antigos gregos, a felicidade era um dom dos deuses, não vinha por mérito das pessoas, mas por lance de sorte ou destino. Não haveria interferência humana no encontro com esse bem, que estaria, portanto, fora do controle do homem. Já na Grécia Clássica, a questão se torna diferente. A felicidade é retirada do território dos deuses e colocada nas mãos dos homens, embora não houvesse a ilusão de que fosse fácil alcançá-la. Essa posição parece estar contida nas ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles. Esses autores viam a felicidade como compilação de muitas qualidades vividas, entre elas, a virtude. O homem virtuoso podia ser feliz, mas essa condição só poderia ser avaliada após sua morte. Nesse ponto, fica inserido o fator racional na posse da felicidade. A virtude organizaria as vidas de acordo com uma ordem preestabelecida e, por essa correspondência racional, surgiria a felicidade (Franco-Filho, 2009).
Para Aristóteles, a felicidade não se reduz à obtenção de prazeres ou de honras, mas consiste numa certa atividade da alma em conformidade com a virtude, o que está em harmonia com a afirmação de que os bens da alma são bens em sentido mais elevado e completo do que os bens externos e os bens do corpo (Rubin, 2010).
A partir do Iluminismo a concepção de mundo no Ocidente começa a girar em torno da crença de que todo ser humano tem o direito de atingir a felicidade. Na mesma linha, o ideário da Revolução Francesa estabelece que o objetivo da sociedade deve ser a obtenção da felicidade de seus cidadãos (Ferraz, Tavares e Zilberman, 2007).
Do exposto até aqui podemos refletir: será que as pessoas são mais felizes hoje do que antigamente, com todos os progressos materiais e tecnológicos de que dispomos? O incrível aumento das expectativas de vida que nos asseguram que poderemos viver mais anos que nossos antepassados incrementa nossa felicidade?
Há pesquisas feitas que tentaram quantificar, em alguns países, a dose de bem-estar proporcionada pela situação socioeconômica das pessoas. O resultado apontou que até certo patamar de prosperidade econômica e organização dos sistemas sociais, os índices de bem-estar autodeclarados parece que aumentam. Mas somente até certo patamar. A partir daí, crescendo a prosperidade, não cresce a sensação de bem-estar. Tudo indica que passa a ocorrer um menor retorno em termos de felicidade (Franco-Filho, 2009).
Pode haver muitas razões diferentes para explicar por que um aumento de renda não se traduz diretamente num aumento de felicidade. Certamente, uma das mais importantes é o fato de que os indivíduos comparam-se entre si. Dessa forma, o nível de renda absoluto fica em segundo plano, tendo uma importância maior a posição do indivíduo relativa aos outros. (Corbi e Menezes-filho, 2006).

FELICIDADE NA BHAGAVAD-GITA
O enredo da BG é conduzido em meio a uma batalha fratricida, onde o poderoso guerreiro Arjuna fica perplexo diante da pesarosa situação de lutar contra seus próprios parentes e preceptores. Nesta situação ele recorre às instruções de Krishna, seu parente e amigo, que mais adiante foi por ele mesmo reconhecido como o Supremo (Prabhupada, 1972).
A BG é um excerto do Mahabharata, o maior épico da história das civilizações. Não há como precisar a data exata de quando foi escrita, mas estima-se que remonte os 5 mil anos (Duarte, 1999). Por questões didáticas a BG foi dividida em 18 capítulos. Os textos apresentados aqui vêm com sua numeração antecedida pela do capítulo.
Para melhor compreensão de como a noção de felicidade perpassa a BG os textos abaixo estão ordenados nos seguintes agrupamentos: questionamentos de Arjuna; felicidade captada pelos sentidos (exterior); felicidade experienciada pelo espírito (interior); relação da felicidade com os gunas, ou arquétipos do comportamento.
Vale ressaltar que a palavra felicidade foi captada na BG através do original sânscrito sukha ou termos correlatos (sukham, sukhi etc). Em alguns textos ela não foi traduzida como felicidade, mas terminologias similares, como prazer etc. Foi utilizada a tradução dos textos por Winthrop Sargeant (2009). Ainda que usemos um único termo em sânscrito (sukha) este nem sempre foi traduzido pela palavra felicidade, assumindo então outros significados assemelhados, como prazer(es), bem- aventurança e agradável.

Questionamentos de Arjuna
Conforme já ressaltado em alguns parágrafos anteriores, as indagações de Arjuna são resultantes do seu desconforto para lutar do lado oposto aos seus mestres e bem-querentes. Os quatro versos elencados abaixo resumem a situação confusa pela qual passava o guerreiro:

1.32.Eu não desejo vitória, Krishna, nem reino nem prazeres. O que é um reino para nós, Krishna? O que é a felicidade, e até mesmo a vida?
1.33.Aqueles em razão de quem nós desejamos, reino, felicidade e prazeres, eles estão aqui enfileirados no campo de batalha abandonando suas vidas e riquezas.
1.37.Portanto, não temos justificativa para matar os filhos de Dhrtarastra, nossos próprios parentes. Como, tendo matado nosso próprio povo, poderíamos ser felizes, Krishna?
1.45.Ah! Estamos determinados a cometer um grande pecado, se preparando para matar nossos próprios parentes pela cobiça por prazeres da realeza.

Nos versos acima Arjuna não define ou se aproxima de algum significado conclusivo para felicidade, mas a relaciona indiretamente com aspectos materiais, como reino, prazeres, riquezas etc. A oposição entre vida (felicidade) e morte (infelicidade) também aparece implícita.
Dessa forma, a idéia de felicidade que trata esta seção tem estreita relação com a felicidade sensorial, captada externamente, neste trabalho definida como exterior. A próxima seção explicitará as características da felicidade exterior manifesta na BG.

Felicidade exterior
Este tipo de felicidade, oriunda primariamente da percepção sensorial, está claramente presente no diálogo entre Krishna e Arjuna especialmente em alguns versos do capítulo 2, onde é revelada a noção de equanimidade, ou seja, a necessidade de perceber os acontecimentos eternos aparentemente antagônicos, a exemplo do frio e calor, como no mesmo nível, o temporário e material, e portanto indignos de grande importância. Observe abaixo os cinco versos nos quais se destaca a idéia de equanimidade:

2.14.Verdadeiramente, Arjuna, Percepções sensoriais que causam frio, calor, prazer ou dor vêm e vão e são impermanentes. Então se esforce para tolerá-los, Arjuna.
2.15.De fato, o homem que não se deixa afligir pela percepção sensorial, ó Arjuna, aquele que é sábio, para o qual felicidade e tristeza são o mesmo, está pronto para a imortalidade.
2.38.Considerando prazer e dor o mesmo, assim como ganho e perda, vitória e derrota, então entre na batalha! Dessa forma você não incorrerá em pecado.
2.56.Aquele cuja mente não é agitada no infortúnio, cujo desejo por prazeres desapareceram, cuja paixão, medo e ira partiram, e cuja meditação é estável, é dito ser um sábio.
6.32. Aquele que vê igualdade em tudo, na imagem do seu próprio eu, Arjuna, seja no prazer ou na dor, é dito ser o yogi supremo.
6.7. O Eu Supremo daquele que conquistou seu próprio eu é pacífico e determinado tanto em frio como em calor, tanto em prazer como em dor, tanto em honra como em desonra
As informações acima expostas nos versos revelam que, aquele que é sábio (2.15), que é o yogi supremo (6.32) ou que conquistou seu próprio eu (6.7), não é afetado pelas aparentes dualidades impermanentes (2.15). De acordo com o 2.14, essas dualidades devem ser toleradas com esforço voluntário. Os dois versos seguintes ressaltam porque a felicidade quando não buscada através da determinação acima exposta tem seu alcance solapado:
4.40. É destruído o homem que é ignorante e não tem fé, cuja natureza é da dúvida. Nem este mundo, nem o além e nem a felicidade é para aquele que duvida.
16.23. Aquele que age sob o impulso do desejo, deixando de lado as injunções das escrituras, não alcança a perfeição, nem a felicidade, nem a meta mais elevada.
A dúvida sobre a real identidade do ser (4.40) bloqueia o alcance da felicidade em qualquer dimensão. Quando confundido e sem resolutividade para manter a equanimidade o eu age influenciado pelos desejos e também falha em uma experiência verdadeira de felicidade (16.23). Um dos versos que melhor serve para definir a natureza da felicidade exterior mencionada na BG é o
5.22 (Prazeres nascidos dos sentidos, de fato, são fontes de dor, uma vez que eles têm um começo e um fim, Arjuna. O sábio não se delicia com eles).

Felicidade interior
Como já ressaltado anteriormente, a felicidade interior é aquela atestada internamente, independente da experiência dos sentidos. Nos dois versos abaixo fica claro como o alcance dessa profunda experiência de felicidade depende de disciplina, de interesse resoluto para alcançá-la:
2.66. Não há sabedoria naquele que é descontrolado, assim como não há concentração naquele que é descontrolado, e não há paz naquele que não se concentra. Como pode haver felicidade para aquele que não é pacífico?
5.13. Renunciando todas as ações dentro da mente, o ser corporificado situa-se feliz, como governante na cidade de nove portões, não agindo de modo algum, nem causando ação.

A atitude explícita nos versos acima trazem como consequência a felicidade interior, também observada em outras terminologias, como bem-aventurança, felicidade infindável etc. Os versos abaixo ressaltam individualmente tanto atitudes necessárias ao alcance da felicidade interior como qualificações diferenciadas dessa felicidade:”
5.21. Aquele cujo “eu” é desapegado das sensações externas, que encontra felicidade no eu, cujo eu é unido com o Brahman através da yoga, alcança felicidade imperecível.
6.21. Ele conhece a felicidade infinita que é alcançada pelo intelecto, transcende os sentidos e, estabelecido assim, não se desvia da verdade.
6.27.O yogi cuja mente está pacificada, cujas paixões se acalmaram, que está livre do pecado e tornou-se unido com o Brahman, alcança a bem-aventurança mais elevada.
6.28. Então disciplinando a si próprio constantemente, o yogi, livre do pecado, facilmente encontra o Brahman, e alcança felicidade infindável.
Ou seja, aquele que é desapegado de sensações externas (5.21), transcende os sentidos (6.21), cuja mente está pacificada, as paixões se acalmaram e está livre do pecado (6.27) e que se disciplina a si próprio livre do pecado (6.28) alcança felicidade imperecível (5.21), felicidade infinita (6.21), a bem-aventurança mais elevada (6.27) e felicidade infindável (6.28).
Abaixo seguem outros três versos que relacionam a felicidade interior com energias transcendentes, como o Brahman e o próprio Krishna no diálogo com Arjuna:
5.24. Aquele que encontra sua felicidade no interior, seu deleite no interior e sua luz no interior, este yogi alcança a bem- aventurança do Brahman, tornando-se Brahman.
9.2. Este é o rei do conhecimento, o rei dos segredos, o purificador supremo, plenamente compreensível, de moral virtuosa, agradável de praticar e imperecível.
14.27. Eu sou o refúgio do Brahman, do imortal e do imperecível, da virtude eterna e da bem-aventurança absoluta.

Relação entre felicidade e gunas
Os versos abaixo foram extraídos dos capítulos 14 e 18 da BG e descrevem como é a felicidade de acordo com os gunas, que no âmbito da ação humana correspondem a arquétipos do comportamento, com características peculiares para cada um deles:
14.6. Destes, sattva, livre de impurezas, iluminante e livre de doenças, condiciona pelo apego à felicidade, e pelo apego ao conhecimento, Arjuna.
14.9. Sattva causa apego à felicidade, rajas à ação, Arjuna; tamas, obscurecendo o conhecimento, causa apego à negligência.
18.36. E agora ouça de mim, Arjuna, os três tipos de felicidade que se desfruta na prática, e pela qual se chega ao fim do sofrimento.
18.37. Aquilo que no começo parece veneno mas que no final é como néctar; esta felicidade, nascida da tranquilidade da própria mente é conhecida como aquela de sattva.
18.38. Aquela que no começo, pelo contato entre os sentidos e seus objetos, é como néctar, e que no final parece veneno, é conhecida como aquela de rajas.
18.39. A felicidade que do início ao final ilude o eu, nascida do sono, indolência e negligência, é conhecida como aquela de tamas.
Do exposto pode-se observar que a felicidade de sattva guarda relação com a tolerância e austeridade diante de situações duais e impermanentes. Para aqueles que superam esta fase aparentemente insípida, brota depois a verdadeira felicidade. Aqueles influenciados por rajas e tamas, por sua vez relacionados respectivamente à ação e negligência, são também condicionados materialmente como em sattva, mas carecem do espírito de abnegação chave para o controle mental tão necessário para a conquista de felicidade interior.

DISCUSSÃO
Por análise comparativa entre os textos da BG, as dúvidas de Arjuna também estão inclusas na mesma categoria daqueles textos da felicidade exterior. O texto chave para conceituar a noção de felicidade exterior é o 5.22 (Prazeres nascidos dos sentidos, de fato, são fontes de dor, uma vez que eles têm um começo e um fim, Arjuna. O sábio não se delicia com eles.)
A felicidade interior, por sua vez, tem como texto chave o 5.21 (Aquele cujo eu é desapegado das sensações externas, que encontra felicidade no eu, cujo eu é unido com o Brahman através da yoga, alcança felicidade imperecível). Essa felicidade plena pode ser alcançada com mais facilidade pela aproximação de atitudes relacionadas ao modo da natureza de sattva, conforme segue no texto 18.37 (Aquilo que no começo parece veneno mas que no final é como néctar; esta felicidade, nascida da tranquilidade da própria mente é conhecida como aquela de sattva).
A felicidade de sattva nasce da tranquilidade da própria mente, assim como em outros três1 versos a pacificação da mente também é referida como muito importante, o que sugere que o estado de sattva é importante para o alcance da felicidade interior.
5.13. Renunciando todas as ações dentro da mente, o ser corporificado situa-se feliz, como governante na cidade de nove portões, não agindo de modo algum, nem causando ação.
6.27. O yogi cuja mente está pacificada, cujas paixões se acalmaram, que está livre do pecado e tornou-se unido com o Brahman, alcança a bem-aventurança mais elevada.
2.56. Aquele cuja mente não é agitada no infortúnio, cujo desejo por prazeres desapareceram, cuja paixão, medo e ira partiram, e cuja meditação é estável, é dito ser um sábio.
Por outro lado, a felicidade vinculada a rajas e tamas tem outros três versos que explicitam suas principais características como mais atreladas à noção de felicidade exterior:
5.22. Prazeres nascidos dos sentidos, de fato, são fontes de dor, uma vez que eles têm um começo e um fim, Arjuna. O sábio não se delicia com eles.
4.40. É destruído o homem que é ignorante e não tem fé, cuja natureza é da dúvida. Nem este mundo, nem o além e nem a felicidade é para aquele que duvida.
16.23. Aquele que age sob o impulso do desejo, deixando de lado as injunções das escrituras, não alcança a perfeição, nem a felicidade, nem a meta mais elevada.
Observando pelo ponto de vista acadêmico, alguns pesquisadores da felicidade observaram que as pessoas mais felizes reportam maior frequência de afetos positivos, mas não maior intensidade. Dessa forma, buscar sentimentos de êxtase relacionados a novos acontecimentos (por exemplo: na carreira ou nas relações amorosas) conduz muito mais para a decepção do que para a felicidade (Ferraz, Tavares e Zilberman, 2007). Conforme coloca o texto 18.38, o interesse pela euforia é característico de rajas, onde o contato com os objetos dos sentidos promove sensação imediatista de felicidade, que em última análise levará à frustração.
Alguns autores discutem a chamada “tirania da liberdade”, isto é, os perigos do excesso de autonomia, considerando que a ênfase colocada na autodeterminação tornou-se exagerada, podendo levar à insatisfação e à depressão. É uma tarefa importante corrigir essa distorção, buscando valores que possam conduzir à satisfação e à atribuição de um significado positivo à existência. (Ferraz, Tavares e Zilberman, 2007).
A avaliação global da vida baseia-se em duas fontes de informação: o quão bem se sente o indivíduo e como ele se compara com diversos padrões de sucesso. As pessoas com alto nível de bem-estar subjetivo seriam aquelas satisfeitas e felizes, possuindo então o bem-estar um componente cognitivo (satisfação) e outro emocional.(Costa e Pereira, 2007).
Comparando a felicidade na BG e a hegemônica na atualidade, podemos depreender que até mesmo a compreensão mais básica e preliminar de felicidade presente na BG, a exterior, por sugerir a importância da equanimidade, é inconcebivelmente superior ao conceito vivenciado e almejado no ocidente. Na BG os sentidos não são mencionados como a fonte do prazer, mas como um instrumento perceptivo que deve ser harmonizado com o interesse do eu verdadeiro (6.7). Dessa forma, como ressalta o 2.38, pode-se estar na batalha da vida com muito mais chances de vitória.

CONCLUSÕES
1.A noção hegemônica de felicidade no Ocidente é, de acordo com os autores pesquisados, centrada em uma visão individualista e hedonista, predominantemente buscada externamente.
2.A BG menciona a felicidade exterior em vários de seus versos, mas recomenda fortemente que ela deve ser procura interiormente para que seja efetiva e duradoura.
3.A relação entre a felicidade e os gunas sugere que o modo de sattva seja mais adequado como referencial para se buscar a felicidade interior.

REFERÊNCIAS
Cazeloto E. Ubuntu e a felicidade técnica. Revista Galáxia, n.21, 2011.
Corbi RB e Menezes-Filho NA. Os determinantes empíricos da felicidade no Brasil. Revista de Economia Política, v.26, n.4 (104), 2006.
Costa LSM e Pereira CAA. Bem-estar subjetivo: aspectos conceituais. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v.59, n. 1, 2007. Duarte R. Bhagavad-Gita: canção do divino mestre. Companhia das Letras. São Paulo, 1999.
Ferraz RB, Tavares HT e Zilberman ML. Felicidade: uma revisão. Revista de Psiquiatria Clínica, v.34, n.5, 2007
Franco-Filho OM. A civilização do mal- estar pela não-felicidade. Revista Brasileira de Psicanálise, v.43, n.2, 2009.
Lustosa AE e Melo LF. Felicidade Interna Bruta (FIB) – Índice de Desenvolvimento Sustentável, capturado da internet em outubro de 2012.
Prabhupada ACBS. O Bhagavad Gita como Ele é. BBT, Los Angeles, 1972.
Rubin B. O direito à busca da felicidade.Revista Brasileira de Direito Constitucional – RBDC, n.16, 2010.
Sargeant W. The Bhagavad-Gita. Excelsior Editions, Nova Iorque, 2009.
Schweig G. The Bhagavad-Gita: the beloved Lord’s secret love song. Harper One, Berkeley, 2007.
Scorsolini-Comin F. A felicidade paradoxal: ensaios sobre a sociedade de hiperconsumo. Psicologia em Estudo, v.14, n.1, 2009.
Sobre o autor:
Professor adjunto da Universidade Federal da Paraíba.
E-mail: tpelucio@gmail.com


Deixa um comentárioShow Comment Form

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (No Ratings Yet)
Loading...